Distantes


Sentamos os três para tomar café, mas não olham para mim, não me dirigem uma palavra e tudo que falo é ignorado. Para eles, eu não sou uma boa filha. Não faço os absurdos que me pedem. Não falo da forma como gostariam que eu falasse. Não tenho os amigos que julgam ser as melhores companhias. E ainda tem o Luan.
— Você se lembra do dia em que a Eva emprestou os meus sapatos para aquele rapaz? — meu pai perguntou como se eu não estivesse presente. Sons invadem a casa adiando a resposta por alguns segundos. Motos. A cidade está sendo tomada por elas.
— Ele acabou com os seus sapatos — minha mãe respondeu com aquele tom que eu detesto.
Me levanto da mesa sem pedir licença. Corro para o meu quarto e bato a porta com força. Hoje é o dia em que vou fugir. Há anos venho tomando coragem. Arrumo uma mochila. Quando o pai e a mãe saírem, eu vou. Nunca mais quero voltar.
Como ele pôde ter acabado com os sapatos se nem os usou? Luan estava terminando a faculdade e procurava emprego há alguns meses quando uma entrevista apareceu. Estava muito empolgado. Uns dias depois, entretanto, ele me disse que iria desistir porque não se sentiria bem trabalhando naquele lugar.
— É por causa das roupas? — perguntei.
Não deixaria que ele desistisse por algo que eu poderia resolver. Peguei um par de sapatos e camisas do meu pai. Luan experimentou tudo, mas nada serviu. Voltei para casa com a bolsa cheia com as coisas que peguei escondida. Deixei-a sobre o sofá por um minuto. Quando voltei, minha mãe tinha tirado tudo de dentro dela.
— Já não basta você frequentar aquela casa, agora quer dar as nossas coisas para eles? — minha mãe gritava tanto que meu pai veio até a sala assustado. Quando soube o motivo da confusão, me apertou o braço.
Cidade pequena, em que todos falavam muito. Palpites não pedidos eram ouvidos a cada passeio na praça. Nas épocas de eleição, porém, só se falava com quem estava do seu lado. Há dois anos, meu pai e Geraldo, o pai de Luan, foram candidatos a prefeito. Nós já estávamos juntos, mas, para meus pais, ele só namorava comigo para descobrir estratégias políticas. Proibiram o nosso namoro.
Luan e eu continuávamos a nos falar. Meu pai venceu a eleição, o que me trouxe muito alívio e a sensação de que tudo iria se resolver. Mas não aconteceu isso. Luan nunca mais pôde entrar na minha casa. Passamos a nos encontrar às escondidas. Tomávamos muito cuidado porque se fôssemos vistos, iriam contar para meu pai e não sei o que poderia acontecer. Nosso ponto de encontro era o sebo. Eu ia para lá com o coração quase me rasgando o peito. Adorávamos achar os livros que um dia já tivemos vontade de ler. Comprávamos e líamos juntos pelo telefone. Romeu e Julieta é o nosso livro favorito. É quase a nossa história, quase porque a nossa não terá morte no final.
Do meu quarto, escuto meus pais conversando no deles. Deixam a porta aberta para que eu escute tudo, mas coloco um fone de ouvido. Quatro músicas depois, me lembro que ainda falta algo na mochila. Vou até a estante de livros da sala. Na volta, escuto um choro. Entro no quarto deles. Fingem não me ver.
— O que está acontecendo? pergunto. — Não me respondem. — Falem comigo! — suplico. Nada. Meu pai chora segurando a mão de minha mãe. Se eu não os conhecesse, até pensaria ser algo preocupante. Um negócio qualquer não deve estar dando o retorno que gostariam, é sempre isso. Está quase na hora deles saírem.
Minha mãe pega um livro da mesinha de cabeceira. É o meu livro, o nosso livro favorito. Como, se o seguro em minhas mãos? Eles devem ter comprado um só para me irritar.
— Nunca entendi porque ela gostava tanto desse livro velho — disse meu pai com tristeza.
"É só se virar e me perguntar. Estou bem aqui, seu homem teimoso. Vocês só reforçam a minha decisão." Eles se levantam e saem do quarto deixando o livro sobre a cama. Passam por mim como se eu fosse invisível. Escuto o barulho da porta da sala. É a minha chance. Guardo o livro e coloco a mochila nas costas. Desço as escadas.
Me despeço daquele lugar horrível, nunca mais quero vê-lo. Quando chego à porta, uma sensação de "déjà vu" toma conta de mim. Eu me vejo saindo por aquela porta, andando pela rua com a mochila e conversando com o Luan pelo celular. Meu coração quase me rasgando o peito. Eu pulo e corro. Só mais alguns metros e eu estaria com ele. Então ouço o som altíssimo de uma moto e freios.
"Déjà vu" é sempre tão estranho. Giro a maçaneta para sair. Está emperrada. Pego uma toalha da mochila para me ajudar a virá-la, mas não funciona. Meu pai deve ter feito isso. De alguma forma, descobriram meu plano. Devem ter achado a mochila. Começo a gritar e chorar.
Meus pais ainda estão em casa. Meus gritos eles escutam? Grito mais. De mãos dadas, eles começam a rezar o Pai Nosso.
— Parem — eu grito. — Abre a porta, pai.
— Querida, nos perdoe por todos os nossos erros. Descanse! — ele pedem juntos.
— Abre a porta! — repito até me cansar, mas nada acontece.
Escuto a moto e os freios de novo. Compreendo. Eu não vi o Luan naquele dia, muitos metros permaneceram entre nós. Hoje a distância é ainda maior. Eu não vou fugir. Eu nunca vou sair dessa casa. Continuo a gritar e os meus pais, a rezar de mãos dadas.